Barra do Piral/RJ Brazil pic by Marcelo Camelo
Barra do Piral/RJ Brazil pic by Marcelo Camelo
“Era bom poder estar sozinha e não ter que ficar sorrindo e parecer feliz. E era um alívio poder olhar com desânimo para a chuva na janela e deixar escaparem algumas lágrimas. Não estava afim de começar uma choradeira.”
um fiapo qualquer da realidade
Ora bem, uma vez recolhido, pelos olhos e pelos ouvidos, esse fiapo de real é logo metido para dentro de suas ruminações, confunde-se com um não-acabar de devaneios e presságios e cogitações fantasiadas, e a realidade de fora é posta de lado, é como que esquecida. Mas está sempre a voltar, só que já muito diluída, esgarçada: não é mais real. Nem o real de fora subsiste, nem o real de dentro chega a impor-se: tudo se mistura. Nem bem atém-se à objetividade do mundo de fora, à maneira realista, nem bem esquece-o, para mergulhar de vez na sua subjetividade, como o fariam os românticos.
Fica-se no intervalo, como se estivesse metade a viver, metade a sonhar, sem que se saiba onde um termina e o outro começa.
O editor de palavras cruzadas do New York Times disse que temos um impulso natural por preencher espaços vazios. Eu gosto de pensar que não se referiu apenas às palavras cruzadas, mas aos espaços vazios dentro de nós, que surgem por vivermos num mundo que nem sempre gosta do que é diferente. Eu tentei preencher meus vazios com palavras e cruzadas e Steve, mas essa não era a resposta. Agora eu sei. Na jornada da vida, só precisa achar alguém tão normal quanto você, ou então, muitas pessoas.
- Sandra Bullock, em Maluca Paixão
O ser humano sempre vai alimentando a ilusão de que pode controlar, ou ao menos um dia chegará a controlar a natureza e os muitos fenômenos que a cercam. Basta ficarmos parados em ventos um pouco mais fortes ou mesmo contemplando um oceano para vermos que isso jamais será possível. Por isso, é sábio que venhamos a aderir à natureza, e não combatê-la. O que mamãe natureza quiser será feito. E isto inclui a natureza humana. Confesso que em minha ignorância por várias vezes quis confrontar esses fenômenos, mas a vida é cheia de lições, e o que estamos passando é uma delas. Às vezes procuro respostas para várias questões, mas na verdade acabo é levantando outras tantas, que vão se acumulando às velhas. Às vezes pistas para as quais não damos a mínima são as mais importantes e geralmente aparecem quando conseguimos ajudar outros em seus caminhos. E não se engane, pois você vai entender um dia que nossa história anterior, independentemente do que queiramos ou possamos fazer, às vezes faz com que o carinho seja uma coisa muito difícil de ser manifestada. Mas o carinho é apenas um lado menor do que realmente interessa, que é o amor. Amor é o que interessa. Sempre lute para encontrar e levar esse sentimento em frente. E essa é a arma que vai ajudar você a vencer muitas fronteiras. Leve alegria para as pessoas.
Rita Lee Mora ao Lado, de Henrique Bartsch.
“Vivo a Fotografia e o mundo de que ela faz parte de acordo com duas regiões: de um lado, as Imagens, de outro, minhas fotos; de um lado, a indolência, o deslizar, o ruído, o inessencial (mesmo que eu fique abusivamente ensurdecido com isso); de outro, o ardente, o ferido. (Via de regra, o amador é definido como uma imaturação do artista: alguém que não pode - ou não quer - alcançar-se ao domínio de uma profissão. Mas no campo da prática fotográfica, é o amador, ao contrário, que constitui a assunção do profissional: pois é ele que se mantém mais próximo do noema da Fotografia.)”
— Roland Barthers, em A câmara clara
Não admite que vasculhem sua memória, a menos que se trate de informações generosas coletadas por inspetores da polícia poética. Basta, no entanto, sacudi-lo para que comecem a cair lembranças. Ele está carregado delas, mas geralmente desaprova esse exercício que o escritor Jacques Perret chamava de “a contação de mim”.
(Pierre Assouline - Cartier-Bresson: O olhar do século)
O flash? Um ato de barbárie rigorosamente proscrito, uma arma criminosa para matar as sensibilidades. A seus olhos, seria tão obsceno usá-lo quanto dar um tiro de pistola em pleno concerto. Por que usar de mais violência quando um simples clique já é em si uma agressão? Na medida em que a autenticidade é a virtude primeira da fotografia, a iluminação precisa ser natural. (…) O flash destrói as ramificações secretas que existem naturalmente entre o fotógrafo atento e seu objeto. Não devemos chicotear a água antes de pescar. O flash não demonstra apenas uma falta de educação. Ele é muito pretensioso, pois quer ofuscar ao invés de iluminar.
(Pierre Assouline - Cartier-Bresson: O olhar do século)
A encenação? É o contrário do que ele sempre fez, disse ou apreciou na fotografia. ele teria preferido mil vezes renunciar o ofício a organizar a realidade.
(Pierre Assouline - Cartier-Bresson: O olhar do século)
Por toda parte e o tempo inteiro. Um ofício? Antes um estado de espírito, uma postura diante da vida, uma visão de mundo. Uma profissão de fé, portanto. Do quê? Do piscar de olhos.
(Pierre Assouline - Cartier-Bresson: O olhar do século)
Seu segredo continuaria intacto. Tudo convidaria à meditação sobre a parcela inexplicável dessa estranha atividade humana associada ao tempo e à morte. Nesse sentido, é sua arte poética. O instante decisivo aparece como um encontro fulgurante entre a realidade e os sonhos de pureza que trazemos desde a infância e que projetamos sobre ela. Esse estado é o tipo de coisa que só encontramos quando não procuramos por uma espécie de disposição. O momento de graça se dá quando entendemos, sem saber por que entendemos.
(Pierre Assouline - Cartier-Bresson: O olhar do século)
- Como você faz suas imagens? - perguntaram eles, com a mesma ingenuidade de Gide suplicando a Simenon para lhe explicar a criação de seus romances.
- Não sei, isso não é importante…
- Mas então por que você trabalha nisso há vinte anos? Escreva sobre isso, deite suas impressões sobre o papel, veremos…
A abordagem é à queima-roupa, pois, conhecendo sua indiferença à coisa, sua reticência por qualquer explicação e sua hostilidade para com a exegese, não havia outra saída. Não parece muito com ele contar o como do porquê. Um longo texto para dizer que ele sempre enganou ou fugiu…
(Pierre Assouline - Cartier-Bresson: O olhar do século)
Para capturar a realidade mais profunda, é preciso arrancar algo da vida. Um “rosto bonito” não é o suficiente.
(Pierre Assouline - Cartier-Bresson: O olhar do século)
Não se pode falar e cantar ao mesmo tempo - e azar das pessoas que querem conversar enquanto tiram fotos. Conversar ou fotografar - é preciso escolher sacrificar um dos dois. Não se faz barulho quando se quer apreender o silêncio interior de um ser. Essa é a única maneira de se tornar íntimo o suficiente para atravessar com a câmera a camisa e a pele do retratado sem se fazer notar. É exatamente este o objetivo: transcrever não a expressão de um rosto, mas as vibrações de uma alma.
(Pierre Assouline - Cartier-Bresson: O olhar do século)
Não se trata de um método, menos ainda de uma técnica, mas de um modo de vida. A vida de improviso. Ele passa seus dias flanando, mas com a mente à espreita. Essa atitude espontânea tem algo de um jogo. Por que vai para lá e não para outro lugar? (…) Sem planos, sem projetos. Ele se deixa levar por seus passos, se desloca com o mínimo de despesar, se hospeda em hotéis de última categoria, se alimenta frugalmente, mas aproveita sem conta o espetáculo da vida.
O ladrão dentro dele já se anuncia, como em qualquer fotógrafo que se preze: seja como for que encaremos o problema, a fotografia é um roubo. É preciso agir sem pensar, pois o imprevisto não volta a acontecer.
(Pierre Assouline - Cartier-Bresson: O olhar do século)